A minha cabeça. Acho que não estou aguentando essa cabeça, moço. Acho que vai ter que picá-la fora. Crem Deus Pai! Muito cabelo. Vão querer pentear meu corte na ponta, ah, não. Dói muito. Eu estava indo bem. Foi só a conta de eu chegar aqui. Eu não aguentei. Eu estava ganhando tão bem. Fiquei na rua e eles falaram assim: sai desse frio! Estava caindo um gelo. Eu vinha para o centro da cidade e ficava no frio. Eu fiquei com meu marido no frio e não morri. Aguentei ficar na coberta e, ele também na coberta. Depois eu tive um filho com ele. É filho meu. Eu vou deixá-lo em algum lugar. Às vezes a gente se engana, olha esse senhor, ai. O olho dele é claro. Eu não tenho nada em Santa Efigênia. Vou ficar no Morro Alto mesmo. Eu fiquei retardada sem saber se sairia do apartamento. Ele disse: não vó! Ele está na casa dele. No fim, eu disse, me deixa sozinha. Com quatro meses meu deu a chave de sua casa. Ficou fechada por quinze anos. Eu não sei. Eu estava chorando. O homem me trancou na casa, no apartamento. Me deu até uma saudade do vizinho. Ele queria me matar. Eu dizia: então me tira daqui. Ele bateu em mim, me agrediu porquê eu mexi com ele. Não chegou ninguém. Eu sou uma menina, gosto de criança brincando comigo.. Tudo bem! Agora por que entrar dentro do Raul? O Raul é o meu avô. Por quê? Para confundir a cabeça da gente. Eu pensando que iria me curar, me salvar. Deixou a gente lá mesmo até crescer e se casar. Foi só falar, não pode! Só Deus é quem pode. Bobo. Nunca fizeram uma reza na igreja esses homens. Meu nome é Luzia. Pra nunca mais. Eu estava no CAPS. Passei dez anos no Morro Alto. Dez anos em Vespasiano. O CAPS fica para o lado de Vespasiano, depois da rodoviária. Pega o ônibus no ponto. Eu estou irritada com esse Morro Alto. Eu estou indignada com esse lugar. Eu vim aqui gostando de vir. O que você veio fazer aqui? Me perguntou a polícia logo ali na rodoviária. Eu vim porque minha mãe mandou. E cadê seus documentos? Ué, meus documentos estão aqui, ó. Ele vai pegar o bandido que cortou a mão dele. Por que não é comigo? Ele lutou com o homem e, o homem morreu. Saiu até sangue. Você que é homem igual a ele pode me ver, ver você e ele. Eu cantava... "Eu e você, você e eu... Você e eu no coração.. Você me abraçou, você e eu..." Eu não fui mais para a aula. Estava aqui em Belo Horizonte. Esse caso aconteceu lá mesmo com a mulher quando eu fui para o Morro Alto. Eu fui de carro, voltar, eu voltei a pé. Mas aconteceu... O povo lá são filhos da roça. Um já foi embora com a enxada. O outro está junto com meu marido. Luzia vai com Deus, mas está caíndo de piolho. Ela era minha avó. Não era minha avó, nada. Era minha neta. Dentro de casa não entrava homem. Todos trabalhando para poder ganhar um dinheirinho. Ela pega o boi comigo porque eu dou alimentação para ela. Pensa que é minha filha e fala que é um sonho. Eu acho que ela é filha do Caio Martins. Eu tive ela com três meses. Eu sou da roça ou então eu sou um grão de café torrado. O homem mastigou o café. A mulher dizia: mastiga mais e mais até doer o dente. Isso foi há trinta e oito mil anos. Não vou desenhar. Eu vi ele se acabando com um, era minha filha. Ele arrancou meus olhos azuis. Meu pai está me vendo. Pegou meu dinheiro no banco. Eu sou filha dele que é homem-patrão. E ela é empregada. Chegou a ficar em mim. É falsa. A Luzinha está chorando. O olho dele é como o seu. Ele já morreu, já morreu. Tem que pedir a Deus, tem que rezar. É meu filho. É bem magrinho, lembra a vovó que é antiga.