sexta-feira, 24 de junho de 2011

São João

Lá vai Maria carregando a bacia. Molha roupa daqui e ensaboa de lá. Pega a pedra, usa a pedra até a roupa limpar. Isso é de manhã com o sol esquentando a moleira. Mangas arregaçadas, frutas no chão e bicadas por passarinhos. Depois trata de ajeitar o almoço. Pica a couve bem fininha, prepara a farinha, afoga o feijão, carne de lata na dispensa, não dispensa o suco de acerola e o mingau de milho como sobremesa. Cuida da cozinha, lava as vasilhas, passa pano no chão. Prende o cabelo e deita na rede ouvindo baião. Descansada, lá vai Maria se emperiquitar pr’u arraiá. Pula fogueira ío, ió, pula a fogueira ia, ia. Ajeita o vestido florido. Maquiagem combinando. Sapato mais ainda. Perfume no cangote, xale no decote, pulseira cor de ouro e as crianças brincando de montar no touro. E lá vai Maria enfeitiçando os homens deixando a Vila de Macaeros um caos. As mulheres com ciúmes, as idosas com inveja, as religiosas com desdém, e os homens com vintém. Nunca uma festa de São João esteve tão animada. Maria não era depravada, nunca foi de andar pelada, não falava com estranhos, falava baixo para não incomodar. Todos os anos é assim. Onde tudo estava errado pelo menos pra Maria que agora era alegria e sorria pru que via. Foi chegando os homens tudo desejando a mulher, oferecia uma pamonha acompanhada de café. Balançava o vestido, rodopiava e batia o pé. Quem via o jeito de Maria se espantava com a heresia. Macaeros se chocava com tanta beleza escondida nos trapos do di-a-dia. Segurando um sino com a mão direita à esquerda o punho quebrava pra lá e pra cá. As cinzas da fogueira levantando na ventania fizeram Maria dançar. E ela ia feito doida, encarava as pessoas e ria desesperadamente. Nada mudava o que tinha em mente. Com ironia ela perguntava, cadê Santo Antônio? Cadê Toinho? Cadê, cadê? Dizem que o povo de lá que todo dia 24 de junho isso acontece. Ela passa o dia muda e a noite enlouquece.

sábado, 11 de junho de 2011

Se é que você me entende

Quando não quis mais foi por que achei que você não me valia. Julguei sua cabeça, seus gestos e seu timbre. Errei no último. Neste você disfarçou muito bem. Agora chorar pra quê? Pra se fazer de vítima? Pra ser de fato a vítima, a tregédia tem que ser muito grande. Chorar pra quê? Pra ser o vilão? Lembre-se: “somos todos na vida qualquer um de nós, vilões e heróis”. Siga em frente teu caminho. Conquiste os novos. Se mostre com verdade. Se não tiver, se apegue na verdade de quem tem. Não se esconda atrás do vidro fumê. Não enxergue chifre na cabeça de cavalo, se é que você me entende por que mais claro que isso, só tirando o insulfilm. E digo mais, na farmácia existem vitaminas. Elas revigoram!!! E isso não é coisa de momento, não é mania, trote, tique ou TOC. Isso é pensado. Surrado em tanque de pedra. Deixado de molho com bastante alvejante. Exposto ao sol quente, bem quente para o cheiro de mofo dar lugar ao Kouros. Se é que você me entende! Agora, muito além do que deseja hoje, faça um internato com doçura. Pergunte a seus risos o motivo de sua alegria. Isso é um bom começo para sair do sofrimento. Se conseguir ver arco-íris, sacis, gnomos e bichinhos de língua estrangeira já é um bom segundo começo. Quando se permitir ser quem realmente é, agarre na calda desse cometa salpique seu verdadeiro eu sobre nossas cabeças. Não eu, o seu eu. Se é que você me entende. A vida é um espelho sem razão. Não conte mais para as paredes coisas do seu coração. As coisas devem estar em uma boa porção do que você vai salpicar. E se você chegou até aqui no final de tudo o que eu disse, rasque metaforicamente, põe fogo neste bilhete virtual e se consegui lhe causar catarse, faça da infelicidade a felicidade, ao contrário do Édipo Rei que se cega e se exíla no final.