FOTO: Márcio CostaTorna-se ainda mais visível aquilo que nunca esteve visível no raso, bem no rasinho. Que se quer olha para alguém. Que não reflete a própria sombra, não sorrir nem com uma flor apontada. Que se quer sorrir. E desce o morro, Maria. Foi buscar pão e leite pros meninos comerem. Lavou a louça de domingo porque teve frango no almoço. Abriu a janela para o ar entrar, sacudiu a cortina, deu um nó. Prendeu o cabelo, limpou o nariz com a mão direita. A esquerda segurava a vassoura. Ajeitou a manga do vestido. Suspirou lentamente e olhou para qualquer direção. Avistou o morro verdinho e lembrou de sua infância. Descia o porão para se esconder das surras. Surrava as bonecas no chão. Limpava o chão. Deitava no chão. Sacudiu o corpo. Bateram na porta. Ouvido na porta. Silêncio. Abriu a porta, deixou entrar, mas se quer sorria. Não tinha ócio. Nunca teve. Principalmente hoje. Mãe solteira. Pobre. Ora, infeliz, ora também. Odeia as estrelas. Odeia os vizinhos. Ama os filhos. Não se ama. Já foi devota de Aparecida. Hoje é devota de quem lhe ajuda. Fez comida para os meninos. Lavou a verdura porque faz questão. Fechou a janela para o sol quente, ligou o ventilador pra refrescar. Soltou o cabelo, passou batom com a mão direita, com a esquerda ajeitava a sandália. Colocou o cinto. Suspirou rápido e olhou para o relógio. Avistou a condução que já vinha e lembrou que não cozinhou feijão. Desceu as escadas correndo para não se atrasar. Atrasou o aluguel. Alugou uma fantasia. Bateram na porta. Barulho. Abriu a porta, deixou entrar, mas se quer sorria. Não era dócil. Nunca foi. Principalmente hoje. Vagabunda. Pobre. Ora, infeliz e ora também. Odeia a lua. Odeia as colegas de trabalho. Ama os filhos. Não se ama. Já foi devota de Santo Antônio. Hoje é devota de quem lhe ajuda. E sobe o morro, Maria. Foi para casa do Dedão. Terminar a noite e garantir o de amanhã. Lavou o rosto por causa do calor. Abriu a porta para a dor, sacudiu o corpo, deu um nó na vida. Prendeu a respiração, limpou a carteira com a mão direita porque a esquerda segurava a faca. Ajeitou a roupa. Cuspiu no chão. Avistou a luz da solidão. Desceu o nível para se garantir. Ali nem precisa fugir. Torna-se ainda visível aquilo que sempre esteve visível, mas lá no fundo, no bem fundo. Que não se enxerga nos olhos de ninguém. Que não reflete na retina, não sorrir nem com a pupila dilatada. Que se quer sorrir.
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