segunda-feira, 18 de abril de 2011

Não sorrir nem com a flor apontada

FOTO: Márcio Costa



Torna-se ainda mais visível aquilo que nunca esteve visível no raso, bem no rasinho. Que se quer olha para alguém. Que não reflete a própria sombra, não sorrir nem com uma flor apontada. Que se quer sorrir. E desce o morro, Maria. Foi buscar pão e leite pros meninos comerem. Lavou a louça de domingo porque teve frango no almoço. Abriu a janela para o ar entrar, sacudiu a cortina, deu um nó. Prendeu o cabelo, limpou o nariz com a mão direita. A esquerda segurava a vassoura. Ajeitou a manga do vestido. Suspirou lentamente e olhou para qualquer direção. Avistou o morro verdinho e lembrou de sua infância. Descia o porão para se esconder das surras. Surrava as bonecas no chão. Limpava o chão. Deitava no chão. Sacudiu o corpo. Bateram na porta. Ouvido na porta. Silêncio. Abriu a porta, deixou entrar, mas se quer sorria. Não tinha ócio. Nunca teve. Principalmente hoje. Mãe solteira. Pobre. Ora, infeliz, ora também. Odeia as estrelas. Odeia os vizinhos. Ama os filhos. Não se ama. Já foi devota de Aparecida. Hoje é devota de quem lhe ajuda. Fez comida para os meninos. Lavou a verdura porque faz questão. Fechou a janela para o sol quente, ligou o ventilador pra refrescar. Soltou o cabelo, passou batom com a mão direita, com a esquerda ajeitava a sandália. Colocou o cinto. Suspirou rápido e olhou para o relógio. Avistou a condução que já vinha e lembrou que não cozinhou feijão. Desceu as escadas correndo para não se atrasar. Atrasou o aluguel. Alugou uma fantasia. Bateram na porta. Barulho. Abriu a porta, deixou entrar, mas se quer sorria. Não era dócil. Nunca foi. Principalmente hoje. Vagabunda. Pobre. Ora, infeliz e ora também. Odeia a lua. Odeia as colegas de trabalho. Ama os filhos. Não se ama. Já foi devota de Santo Antônio. Hoje é devota de quem lhe ajuda. E sobe o morro, Maria. Foi para casa do Dedão. Terminar a noite e garantir o de amanhã. Lavou o rosto por causa do calor. Abriu a porta para a dor, sacudiu o corpo, deu um nó na vida. Prendeu a respiração, limpou a carteira com a mão direita porque a esquerda segurava a faca. Ajeitou a roupa. Cuspiu no chão. Avistou a luz da solidão. Desceu o nível para se garantir. Ali nem precisa fugir. Torna-se ainda visível aquilo que sempre esteve visível, mas lá no fundo, no bem fundo. Que não se enxerga nos olhos de ninguém. Que não reflete na retina, não sorrir nem com a pupila dilatada. Que se quer sorrir.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Olho de Lince (Jards Macalé e Waly Salomão)

Foto/detalhe: Marcos Samara.





Quem fala que eu sou esquisita hermética

É porque não dou sopa estou sempre elétrica

Nada que se aproxima nada me é estranho

Fulano sicrano beltrano

Seja pedra seja planta seja bicho seja humano

Quando quero saber o que ocorre a minha volta

Eu ligo a tomada abro a janela escancaro a porta

Experimento invento tudo nunca jamais me iludo

Quero crer no que vem por aí beco escuro

Me iludo passado presente futuro urro

Reviro balanço reviro na palma da mão o dado

Futuro presente passado

Tudo sentir total

É chave de ouro do meu jogo

É fósforo que acende o fogo

Da minha mais alta razão

E na seqüência de diferentes naipes

Quem fala de mim tem paixão


* Olho de Lince Maria Bethânia

Pagar Pra Ver

Chega d'eu tentar me enganar e de esquecer, querer esquecer e se perder porque não dá mais pra segurar a dor da dor. Matar o nosso amor só por prazer de me vingar e me jogar sobre você dissimulando no olhar a lágrima correndo, escorrendo, caindo, molhando a minha roupa. Roubando o seu tempo, seu beijo, eu deixo você ir, mas sem fingir que este amor esteja impregnado com seu cheiro no meu travesseiro. Eu quero mais é não conter. Quero correr e me jogar em outro corpo e não me sentir um traidor. Quero beijar a boca como se fosse um virgem a procura de amor e me entregar sem medo de sofrer... Sorrindo, aplaudindo, te olhando, gostando, apostando em um futuro promissor e a cada dia este amor há de crescer. E sem pressão, sem sufocar e te cobrar, te deixo andando pelo mundo como se você não fosse meu. E se é esse o jeito que eu tenho pra te ter, fecho meus olhos para o que possa acontecer. Chorando, doendo, sofrendo, perdendo, te recebo com um brilho no olhar e com tudo mais que os outros possam te julgar. Só pra te ter como quem descobriu a vida por aí e agora sujo quer me ter e esquecer o que viveu. Implorando, gritando, pedindo, bandido, beijando até meu corpo arrepiar e me promete não correr que vai viver e como não dá mais pra controlar o que sente ao me ver, se despede do sofrer. Abraços, sorrisos, destino, cretino, assumindo, me tendo, envolvendo, sereno, querendo que o dia só tenha o luar que é pra me amar sem medo de morrer.


Inspirado na canção: Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração) de Gonzaguinha