quarta-feira, 28 de abril de 2010

Rima da desilusão

Não mereço sua piedade. Reparou a minha idade? Não sou criança para aguentar seus desaforos. Esqueça meu telefone. Me abandone. Assuma que não me quer mais. Ainda é tempo de voltar atrás. Veja como estou confuso. Ta tudo muito obscuro. Os horários são os mesmos e isso que me agonia. Você sempre me joga na ventania. Ligou uma vez e foi decisivo. E recebe uma mensagem, pensa só no seu umbigo. Não adianta retornar. Eu não quero mais falar. Já ligou a segunda vez, me contando 1,2,3..... Para que ficar nervoso? Vou da vida eu cuidar. Tenho contas pra pagar. E ligou a terceira vez se fazendo de coitado. Eu já disse pra você que não tô mais preocupado. Vê se deixa eu trabalhar, tenho contas pra pagar. Se fui doce de manhã foi porque ainda queria. Se agora fui grosseiro, você bem que merecia. E na quarta ligação o celular eu desliguei. Vê se para de insistir pra você não sou mais rei.

Vou mandar pintar a casa para sumir com suas digitais

No sofrimento é que percebemos o quanto amamos alguém. O amor fraterno, amigável, de homem. Não importa. Sempre que sofremos a dor transborda. É como deixar de fumar. Você quer, mas os gestos, horários e momentos te fazem lembrar do vício. No caso do amor, o vício é do bem e, se amamos de verdade não queremos deixar de amar, certo? Aí que mora a questão. O que leva alguém que diz que gosta querer ficar longe? De fora da roda. Do convívio. Abandonar a cadeira na mesa de jantar. Abandonar os chinelos, a escova de dente, o fio dental endurecido no ralo da pia do banheiro. Esquecer os papéis que eram importantes e, que hoje: "pode jogar fora!" Esse é o amor? O vício do amor? Oras, não me venha com conversas sem sentido. De que precisa estar longe para sentir o outro. Para enxergar o quanto gosta. Oras, chega de disse me disse, meu bem. Diga a verdade. Na lata. Na cara. Mesmo que doa no outro, mas diga. Diga tudo. Vomite. Escarre. Cuspa. Chore as dores. Alivie a alma. Sofra junto, mas sofra. Não banque o durão. Não olhe para o chão. Erga-se. Grite o mais alto que puder, mas emita algum som. Não me deixe jogar-te no meu baú ou esfregar a cama até que a marca de seu corpo suma. Não permita eu recolher pela casa seus restos. Copos vazios, roupas, perfume, remédio, meias, cuecas.... restos de unhas esquecidas ao pé do sofá naquele momento de descontração enquanto tomávamos nosso refresco preferido. Anime-se! Vamos, corra pelo menos três quarteirões. Mudamos os hábitos? Mas são eles que marcam nossa história, oras. Isso, ore. Peça ajuda a Deus. Aos santos protetores. Proteja sua orelha na certeza de que vai ficar vermelha. Eu estou afirmando isso. Descasque as frutas de outras estações. Reeinvente um novo café de domingo que não seja no domingo. Domingo eu só sou boa companhia para você! Esqueça o canal 39. Desprograme-o de sua TV. Ou vai querer lembrar de mim o resto da sua vida? Finja estar triste se preferir. Eu vou rir, mas vou aceitar, ou não. Não sei. Já disse que não sei. Sem falar nas comidas. Na solidão da cozinha. Eu e as panelas. E você lá grudado no 39. Avante! Vamos! Vamos! Quem gosta de panquecas levanta a mão! Gollllllllllllllllllllllll. E eu grito: Bollllllllllllllllllllllllll. Acho que não vou conseguir vê-lo nem na minha estante. Pendurado na parede nem pensar. Deixa pra lá. Vou mandar pintar a casa para sumir com suas digitais. Trocar os móveis coloniais por algo mais moderno. Totalmente 2010. Trocar de nome talvez ajuda. Inserir um "Y" no lugar o "i" já é um bom começo. Assim quem sabe eu perceba que já posso andar sozinho, sem andador ou rodinhas na bicicleta. Queria mesmo é te mandar plantar batatas concretas, não simbólicas. Te deixar o apartamento de frente para a curitiba e as caixas de capuccino. Porque se eu tomava, você tomava também.