
Foi exatamente assim que aconteceu. Eu estava no ponto na avenida Afonso Pena, quando meu ônibus passou muito cheio e eu não consegui entrar. Estava muito rápido e bateu na guarita arrancando a estrutura do lugar. Nessa hora caiu uma senhora muito gorda e teve o vestido rasgado na queda quando tentou se segurar na porta do coletivo. Só ouvi os gritos das pessoas em desespero e solidariedade a senhora que sangrava muito e não conseguia se levantar. Ela, ainda no chão, abriu a bolsa e sacou uma arma, que no primeiro momento parecia ser de brinquedo e, atirou sem direção fazendo com que os gritos fossem de desespero. Ninguém estava entendendo nada. Um rapaz que usava uma camisa verde e amarela foi atingido na perna ao mesmo tempo em que uma criança que estava no colo da mãe pediu água. A mãe que se abaixou para pegar a garrafa que carregava na mochila que estava apoiada em seu pé, por pouco não foi atingida por um dos tiros. E a gritaria não parava. A senhora gorda se levantou tentando fugir, atravessou a Afonso Pena e quebrou a direita na rua Espírito Santo. Eu sai correndo atrás dela na tentativa de detê-la. O rapaz atingido gritava: corre! Corre! Pega essa assassina! Quanto mais ele gritava, mas eu corria. A senhora foi tirando o vestido rasgado e corria tanto que eu não consegui alcançá-la. Peguei meu celular no bolso e chamei a polícia. Quando dei por mim, já estava na rua Rio de Janeiro em frente ao shopping cidade. Pouquíssimas pessoas na entrada. Eu perguntava se tinham visto a senhora, mas todos diziam que não. Comecei a ficar preocupado com o sumiço da gorda e com o que estava acontecendo lá na Afonso Pena com o ônibus e com o rapaz ferido. Eu não desisti. Entrei na galeria da c&a, ainda na Rio de Janeiro, e fui atrás dela. Quando subi a escada rolante eu vi um senhor de roupa esquisita, saindo do provador. Tive de dar a volta pelo corredor do segundo andar para descer a escada e verificar aquele homem. Ele estava aparentemente nervoso e carregava uma pasta de couro marrom. Era magro, esguio e bonito. Tirou do bolso um lenço branco e secava o suor do rosto. Eu podia jurar que ele estava envolvido no sumiço daquela senhora. Ele já estava saindo da galeria quando meu celular tocou. Era minha mãe querendo saber se eu ia para casa almoçar. Ela, se eu me lembro bem, tinha feito bife de pernil e couve e queria deixar tudo fresquinho na hora que eu chegasse. Atendi e disse que retornaria. Saí atrás daquele homem. Ele não percebeu que eu o seguia. Os passos aumentavam a medida em que a nuvem escondia o sol. Ele foi em direção a Afonso Pena. Desceu a rua até chegar na praça sete. Ficou ao lado do banco real espiando a polícia ir embora e liberar o motorista do ônibus. A avenida voltou com o fluxo normal dos carros depois que todos deram o parecer do ocorrido. Eu por pouco não perdia o homem de vista. Quando eu me aproximei dele, um táxi parou e o safado evaporou lá dentro. É claro que eu anotei a placa. Eu saí correndo em direção a c&a atrás da mulher que desapareceu. Subindo a Rio de Janeiro fui de marquise em marquise. Uma chuva horrível desabou no centro. Com o coração acelerado e uma dor de cabeça insuportável, peguei uma roupa qualquer na arara como desculpa para entrar no provador. A primeira cabine do lado direito estava ocupada. Era um menino com as calças arriadas. A segunda cabine parecia vazia. Quando abri a cortina vi o que procurava. A senhora gorda estava lá. Morta, ensanguentada, deformada. Irreconhecível.
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