segunda-feira, 28 de junho de 2010

Felipe

Claude tinha quase trinta quando parou para se ver. Foi quase um susto. Viu-se velho no espírito. Por isso chorou. Viu jovens e invejou-se. Inveja mesmo. Seu dorso suava. Sua barriga estufava a camisa. Claude viu-se nu na vida e achou-se feio. Feio mesmo. Ligou-me minutos antes de se jogar na frente de um automóvel. Matou a si e a inocentes. Esta história é sobre um destes inocentes. Felipe. O motorista da pick’up. Felipe mesmo.
Quando tirou carteira, garoto, tinha 17 pra 18. Comemorou jogando sinuca num boteco sujo. Agora que tinha a carta faltava-lhe o carro. Economias? Nada. Pai falecido, mãe pensionista. Tios? Alguns, todos falidos. Era preciso trabalhar e juntar. Foi trabalhar de peão. Segundo grau completo, pouca oferta. Mercado severo, não tinha escolhas. Montava bicicletas. Do que ganhava um pouco guardava, um outro torrava e com trocos procurava agradar a mãe. Lenços, toalhas, mini-frascos de perfumes importados. Acho. Não demorou muito pôde ter o primeiro carro. Depois trocou. Mais troca. E uma última sua pick’up. Dirigia pela movimentada Avenida Pedro II quando, da batida suicida, morreu. A camionete rodara, capotara e por fim chocou-se num poste. Com Felipe morreu também Nair, um amigo da Monark. A avenida empalideceu-se, afinal eram três jovens moços em banho de sangue. Todos morreram ali mesmo. Minto, parece que Nair chegou a ser socorrido, mas a caminho faleceu.
Lembro, com muito gosto, da paixão por carros. Também tenho os meus. Penso em acidentes, em fraturas e perdas de dentes e continuo dirigindo. Por sorte ninguém se jogou a frente do meu carro. Por sorte apenas pequenas batidas. Pequena mesmo. Porque sei dirigir e o faço com prudência. Quando me distraio, me corrijo. Por isso evito o retrovisor. Às vezes me sinto assim, Claude e velho de mais. Vejo moças lindas, quase nuas e seus dotes de conquistar os bofes. E eu assim, como Claude, meio sozinho. Meio feio, velho, tristinho. Hoje é carnaval e tantos jovens me assustam. Suados nas ruas a pular e beber mil biritas. Inveja mesmo. Pego o telefone e desligo. Depois redisco. Meus amigos...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Vida Real - Final

Fiquei muito nervoso. O homem desligou o celular e correu em direção a rua. Foi andando muito depressa. Uma kombi branca passou tão perto que quase o atropelou. Ele desceu a rua São Paulo em direção a praça Sete. Chegando na Afonso Pena entrou no edifício Almirante Lemos. Havia um senhor parado na portaria que fez um sinal com a mão e seguiu em direção a rodoviária. O prédio parecia um labirinto. Fui até o segundo andar e ouvi barulho de música e de pessoas falando. Todas as portas estavam fechadas. Fui para o terceiro andar quando vi o homem entrar no apartamento 303. Logo em seguida o menino da lanchonete saiu com uma mochila. Eu o segurei e levei para a escada do prédio. Ameacei chamar a polícia até que me contasse o que estava se passando. Ouvi passos no corredor e tampei a boca dele com minha mão para que ninguém nos ouvisse. Uma mulher chorava muito alto. Uma outra implorava para ir embora e oferecia dinheiro a alguém. Empurrei a porta da escadaria e vi o homem da pasta marrom. Esperei tudo se acalmar e indaguei o menino que me disse que o homem se chamava Boca Rica e que pagava para ele vigiar mulheres gordas pelo centro de Belo Horizonte. Liguei para polícia e informei o endereço. Em cinco minutos ouvi uma gritaria no primeiro andar. Soltei o menino que ficou aos cuidados do cabo Aurélio. Subimos mais dois lances de escada e sentimos um odor muito forte. A polícia foi até o final do corredor e abriu, a força, a porta do apartamento 501. Segundo o menino, era o local onde ficava o Boca Rica. Todos levaram um susto. Havia mulheres mortas pelo chão e todas gordas. O homem estava nú em cima de três corpos em uma cama enconstada a direita da parede do quarto de frente ao banheiro. Na mesa, ao lado da cama, tinha um envelope, dinheiro, uma arma e uma foto da senhora da C&A. O cabo Aurélio augemou o homem que, calmamente, dizia que matava por amor. Sandra era a mais nervosa e aparentava ter trinta e cinco anos. Ela gritava que Boca Rica seduzia as mulheres e matava por dinheiro e loucura. A Gabriela, chorava copiosamente balançando a cabeça de uma lado para outro enquanto o menino queria saber do dinheiro dele. O policial Gomes encontrou colado dentro do armário umas cinquenta fotos de mulheres e mostrou para ele que gritava chamando-se de assassino. "Eu sou assassino!" "Um assassino!".

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida Real - Parte II

Fiquei desesperado quando vi aquela mulher morta. Sai correndo sem direção e fiquei parado na rua por cerca de cinco minutos sem saber o que fazer. Desci a Rio de Janeiro atravessei a rua entrando no popkid. Pedi uma água gelada que bebi de uma vez só. Nessa hora o sinal fechou. Aproveitei para atravessar novamente quando um pálio cinza parou. Era a Raquel. Entrei desesperado dentro do carro. Ela não entendendo nada e eu não conseguindo explicar só disse que uma tragédia havia acontecido e que era preciso chamar a polícia. Aproveitei o sinal e desci do carro em disparada. Ela me olhava assustada enquanto eu virava a esquerda. Vi um policial e expliquei para ele o que tinha acontecido. Ele acionou a central da polícia militar que confirmou o acidente na Afonso Pena. Seguimos até a loja C&A que estava muito cheia por causa do assassinato da mulher. O policial anotou meu nome, identidade, endereço e pediu minha ficha pelo rádio. Eu relatei tudo. Disse que havia visto um homem sair de dentro do provador de roupas e que eu havia anotado a placa do táxi. Mais policiais chegaram no local e isolaram a área. Logo em seguida o perito chegou pedindo que as pessoas saíssem de lá. Eu queria muito saber o motivo do assassinato e fiquei. De repente um dos peritos pegou debaixo da senhora um envelope com dinheiro. Tiraram fotos e colheram digitais. O cabo Aurélio me disse que era melhor eu ir embora e que aquela ocorrência demoraria. Liguei para minha mãe, mas ela não atendeu. Liguei para o meu trabalho e a Cristina me disse que o chefe estava furioso com meu atraso. Pedi para ela que avisasse que só voltaria no outro dia pela manhã e que explicaria quando chegasse. Fiquei na dúvida se voltaria ou não para casa. Queria muito saber o motivo da morte. Resolvi ficar. Fui até a lanchonete e pedi uma coxinha e uma coca-cola. Não consegui comer tudo. Um garoto de rua me pediu um pedaço dizendo que estava com fome. Dei tudo a ele. Esfomiado ele sentou no banco deixando cair um papel com um número de telefone e uma frase que dizia: "quando for embora me avise". Peguei o papel e perguntei ao garoto do que se tratava aquilo. Ele correu desesperado e pedia para não denunciá-lo a polícia. Comecei a ficar preocupado de novo. Peguei meu celuar e liguei para o número. Para minha surpresa na primeira chamada, um telefone tocou ao meu lado. Puta que pariu. Era ele. O homem da pasta marrom.

domingo, 13 de junho de 2010

Vida Real


Foi exatamente assim que aconteceu. Eu estava no ponto na avenida Afonso Pena, quando meu ônibus passou muito cheio e eu não consegui entrar. Estava muito rápido e bateu na guarita arrancando a estrutura do lugar. Nessa hora caiu uma senhora muito gorda e teve o vestido rasgado na queda quando tentou se segurar na porta do coletivo. Só ouvi os gritos das pessoas em desespero e solidariedade a senhora que sangrava muito e não conseguia se levantar. Ela, ainda no chão, abriu a bolsa e sacou uma arma, que no primeiro momento parecia ser de brinquedo e, atirou sem direção fazendo com que os gritos fossem de desespero. Ninguém estava entendendo nada. Um rapaz que usava uma camisa verde e amarela foi atingido na perna ao mesmo tempo em que uma criança que estava no colo da mãe pediu água. A mãe que se abaixou para pegar a garrafa que carregava na mochila que estava apoiada em seu pé, por pouco não foi atingida por um dos tiros. E a gritaria não parava. A senhora gorda se levantou tentando fugir, atravessou a Afonso Pena e quebrou a direita na rua Espírito Santo. Eu sai correndo atrás dela na tentativa de detê-la. O rapaz atingido gritava: corre! Corre! Pega essa assassina! Quanto mais ele gritava, mas eu corria. A senhora foi tirando o vestido rasgado e corria tanto que eu não consegui alcançá-la. Peguei meu celular no bolso e chamei a polícia. Quando dei por mim, já estava na rua Rio de Janeiro em frente ao shopping cidade. Pouquíssimas pessoas na entrada. Eu perguntava se tinham visto a senhora, mas todos diziam que não. Comecei a ficar preocupado com o sumiço da gorda e com o que estava acontecendo lá na Afonso Pena com o ônibus e com o rapaz ferido. Eu não desisti. Entrei na galeria da c&a, ainda na Rio de Janeiro, e fui atrás dela. Quando subi a escada rolante eu vi um senhor de roupa esquisita, saindo do provador. Tive de dar a volta pelo corredor do segundo andar para descer a escada e verificar aquele homem. Ele estava aparentemente nervoso e carregava uma pasta de couro marrom. Era magro, esguio e bonito. Tirou do bolso um lenço branco e secava o suor do rosto. Eu podia jurar que ele estava envolvido no sumiço daquela senhora. Ele já estava saindo da galeria quando meu celular tocou. Era minha mãe querendo saber se eu ia para casa almoçar. Ela, se eu me lembro bem, tinha feito bife de pernil e couve e queria deixar tudo fresquinho na hora que eu chegasse. Atendi e disse que retornaria. Saí atrás daquele homem. Ele não percebeu que eu o seguia. Os passos aumentavam a medida em que a nuvem escondia o sol. Ele foi em direção a Afonso Pena. Desceu a rua até chegar na praça sete. Ficou ao lado do banco real espiando a polícia ir embora e liberar o motorista do ônibus. A avenida voltou com o fluxo normal dos carros depois que todos deram o parecer do ocorrido. Eu por pouco não perdia o homem de vista. Quando eu me aproximei dele, um táxi parou e o safado evaporou lá dentro. É claro que eu anotei a placa. Eu saí correndo em direção a c&a atrás da mulher que desapareceu. Subindo a Rio de Janeiro fui de marquise em marquise. Uma chuva horrível desabou no centro. Com o coração acelerado e uma dor de cabeça insuportável, peguei uma roupa qualquer na arara como desculpa para entrar no provador. A primeira cabine do lado direito estava ocupada. Era um menino com as calças arriadas. A segunda cabine parecia vazia. Quando abri a cortina vi o que procurava. A senhora gorda estava lá. Morta, ensanguentada, deformada. Irreconhecível.