Mesmo quando não temos muito a dizer se faz necessária a palavra. Dita rasgadamente ou aquela dita aos sussurros. Ao pé do ouvido. E olha que nem precisa ser doce, as palavras. Mesmo que ao dizer, elas saiam perfumadas de frutas da estação que você devora copiosamente. Não peço isso de você. Não peço mesmo. Elas saem gritadas de seu diafragma quando você só quer sussurrar. Não quero nem mencionar o contrário. Você fica mais bonita assim, se desmintindo com as palavras. Você é uma mentira. A contradição de uma verdade infundada. Você é a suspeita de dar uma facada no companheiro e acaba baleada em cima do colchão. O vício do amor escondido no cofre. Por isso diga tudo. Xingue a vizinha que me canta. Que te encanta. Por isso as palavras amargas, mesmo que elas saiam perfumadas de frutas da estação que você devora copiosamente. Você é aquela capaz de tudo. Até de se esconder debaixo da cama em dia de fla, flu para chamar atenção. De desligar o padrão de luz e acreditar que ela acabou. De chamar a polícia para me fazerem desligar o 39. De cismar que o iogurte natural fica mais barato quando feito em casa. Prefiro quando suas palavras são assim, contraditórias. Quando elas, suas palavras, aparecem nos meus sonhos e invadem minha boca como moscas desnorteadas. Grite mais alto. Sou capaz de gozar ouvindo você se lamantar. Se lamente, meu amor. Se lamente. Xingue sua mãe, minha mãe, nossas mães. Mande o porteiro tomar naquele lugar. Dê chazinho as crianças e bote-as para dormir mais cedo. Tenha mais tempo para brigar comigo, mas nunca sussurre aos meus ouvidos. Você é melhor assim, dissimulada, falsa. Imaginativa para mim e para você.
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