No sofrimento é que percebemos o quanto amamos alguém. O amor fraterno, amigável, de homem. Não importa. Sempre que sofremos a dor transborda. É como deixar de fumar. Você quer, mas os gestos, horários e momentos te fazem lembrar do vício. No caso do amor, o vício é do bem e, se amamos de verdade não queremos deixar de amar, certo? Aí que mora a questão. O que leva alguém que diz que gosta querer ficar longe? De fora da roda. Do convívio. Abandonar a cadeira na mesa de jantar. Abandonar os chinelos, a escova de dente, o fio dental endurecido no ralo da pia do banheiro. Esquecer os papéis que eram importantes e, que hoje: "pode jogar fora!" Esse é o amor? O vício do amor? Oras, não me venha com conversas sem sentido. De que precisa estar longe para sentir o outro. Para enxergar o quanto gosta. Oras, chega de disse me disse, meu bem. Diga a verdade. Na lata. Na cara. Mesmo que doa no outro, mas diga. Diga tudo. Vomite. Escarre. Cuspa. Chore as dores. Alivie a alma. Sofra junto, mas sofra. Não banque o durão. Não olhe para o chão. Erga-se. Grite o mais alto que puder, mas emita algum som. Não me deixe jogar-te no meu baú ou esfregar a cama até que a marca de seu corpo suma. Não permita eu recolher pela casa seus restos. Copos vazios, roupas, perfume, remédio, meias, cuecas.... restos de unhas esquecidas ao pé do sofá naquele momento de descontração enquanto tomávamos nosso refresco preferido. Anime-se! Vamos, corra pelo menos três quarteirões. Mudamos os hábitos? Mas são eles que marcam nossa história, oras. Isso, ore. Peça ajuda a Deus. Aos santos protetores. Proteja sua orelha na certeza de que vai ficar vermelha. Eu estou afirmando isso. Descasque as frutas de outras estações. Reeinvente um novo café de domingo que não seja no domingo. Domingo eu só sou boa companhia para você! Esqueça o canal 39. Desprograme-o de sua TV. Ou vai querer lembrar de mim o resto da sua vida? Finja estar triste se preferir. Eu vou rir, mas vou aceitar, ou não. Não sei. Já disse que não sei. Sem falar nas comidas. Na solidão da cozinha. Eu e as panelas. E você lá grudado no 39. Avante! Vamos! Vamos! Quem gosta de panquecas levanta a mão! Gollllllllllllllllllllllll. E eu grito: Bollllllllllllllllllllllllll. Acho que não vou conseguir vê-lo nem na minha estante. Pendurado na parede nem pensar. Deixa pra lá. Vou mandar pintar a casa para sumir com suas digitais. Trocar os móveis coloniais por algo mais moderno. Totalmente 2010. Trocar de nome talvez ajuda. Inserir um "Y" no lugar o "i" já é um bom começo. Assim quem sabe eu perceba que já posso andar sozinho, sem andador ou rodinhas na bicicleta. Queria mesmo é te mandar plantar batatas concretas, não simbólicas. Te deixar o apartamento de frente para a curitiba e as caixas de capuccino. Porque se eu tomava, você tomava também.