quarta-feira, 18 de março de 2009

Espero que no Céu não tenha TV

Ontem morreu um dos maiores artistas que eu conheço. Considero o Clodovil um artista incrível. Um cara que carregava uma história há 71 anos. Sua carreira polêmica por falar demais, e por estar ligado a moda que sofreu mudanças e se tornou cada vez mais comercial deixando a alta costura de lado. A televisão que não abre espaço para velhos mesmo talentosos..... Ontem, a Sônia Abrão ficou remoendo o programa inteiro a doença de Clodovil. Sensacionalismo demais. Me soou que ela queria a confirmação da falência dos órgãos para que pudesse, em primeira mão, anunciar a morte dele. Como se não bastasse, hoje um outro programa da mesma casa, usou e abusou de imagens e de celebridades não tão famosas como rebatedores do programa. Mais sensacionalismo..... O pior de tudo foi ver a apresentadora, que não me lembro o nome, não mesmo, sair do tom triste e ir direto para o tom grave dos merchandising com um sorriso estampado no rosto. Ou será no bolso? Aff, aff....
Gente, a televisão nos engana. Tudo, ou quase tudo que é exibido, é feito de forma a ser maior, ou seja, o fato quando narrado tem uma proporção apelativa e quase imperceptível ao grande público. A imagem narrada por esses apresentadores/jornalistas tende a ser exagerada. Eu diria que estamos na era do grotesco onde a estética do contrário é acentuada. Contrária a normalidade humana. Divulgar a morte de Clodovil, por exemplo é natural nos meios de comunicação. Mas, essa divulgação foge da estética correta, artística e jornalística. Torna-se horrível, grotesco mesmo, escandalosa, rível. A culpa disso tudo é dos programas de auditório que tomou conta da televisão mundial. Por quê? Porque a televisão dá mais valor ao que atinge a grande massa. Entende-se a televisão como empresa e ora, como comunicação. Atinge a todas as classes sociais e chega na casa de todos ao mesmo tempo. É aquela velha máxima. O ter e o aparecer são melhores do que ser. Cria a ilusão e foge do real. Ai entra uma outra história. Devemos procurar um psicólogo, talvez!? E o pior de tudo é que tem uma pesquisa (foi comentada em um livro que li, "1000 perguntas - Teoria da Comunicação" de 2005) que constatou que a audiência de alguns programas variava de acordo com o perfil do apresentador, da roupa que vestia e da forma com que falava e não por causa do assunto tratado como pauta. Fala sério!
Por isso que a morte de Clodovil virou essa bagunça na televisão. Ontem eu chorei um pouco. Choro mesmo. Me emociono. Não tem jeito. Gostava dele. Não o tinha como ídolo, mas admirava a coragem pautada na idade, é claro. Clodovil era inteligente e tinha uma boa memória. Isso me impressionava. Ele era mais interessante do que o artista convidado. Essa idéia que tenho do Clodovil não foi fruto da televisão. Muito pelo contrário. A televisão criticava o jeito irreverente, sóbrio, sarcástico e rude com que falava das coisas e pessoas. Ontem, dia 17/03/09 era aniversário de nascimento de Elis Regina e a morte de um grande homem. Conscidência? Me parece que os dois foram grandes amigos. Me lembrei de outra coisa. Hoje teve um programa de tv que colocou a imagem do Clodovil e, ao fundo, a voz de Elis cantando "Atrás da porta". A parte da música em questão era..... Quando olhastes bem nos olhos meus. E teu olhar era de adeus, juro que não acreditei.... Sabe o que me incomoda? É que mesmo sabendo que a televisão não presta, eu a assisto. É um vício assumido. Tenho visto cada vez menos, mas sempre me recorro a ela. Sou, como muitos, um ser contagiado por esse mal necessário. É nela que nos informamos.... O impresso está caro. A Revista está absurdamente no superávit. E a televisão é de graça. Só temos dinheiro para comprar a Caras. Quer saber tudo o que rola na casa mais vijiada do país? Assine o pay-per-view! Aff, aff.... O importante mesmo é saber que o banco real dá 10 dias sem juros no cheque especial. Aproveite essa mamata e assine a tv. Aproveite essa oportunidade e compre a titi. Adquira as batas brilhantes de caminho das índias. Compre o esmalte usado pela Maia e, de quebra, o brinco de ouro. Tome sorvete e beba muita coca-cola. Só posso desejar um descanso lindo ao Clodovil e torcer para que no céu não tenha televisão.