segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Partir


Acho que já posso partir.
Já posso partir.
Já posso.
Eu posso.
Vivi quase trinta anos.
Vivenciei brigas, amores, paixões...
....Dos outros e minhas paixões, amores e brigas.
Já chamei tudo de trem e ainda chamo.
O trem que deveras é, o chamo de metrô.
A minhoca de metal dita por Falcão.
Eu que já pisei num palco como artista.
Que fiz um mundo torto de autista.
Que vi por muitas vezes Maria Rita
E por muito mais ousei cantá-la.
Degustá-la em minha vitrola.
Que assisti Bethânia. Que dormi Bethânia.
Que comi Bethânia. Que fui lá ver...
Bethânia-me! Bethânia-me!
Que fui mais que fã por ai.
E até por aqui.
Que recebi axé.
Um abraço apertado....
Mesmo não sendo de namorado.
Que me retribui carinho de amigo.
Eu já me posso partir.
Por ter a Cozza por perto
Por amar a Cozza.
Por ela ser mais do que é.
Ela é. Sim, ela é.
Reservo este tempo para contar
Pra você ter o que lembrar.
A música me dá alegrias
Mas preciso partir.
Acho que já posso partir.
Já posso partir.
Já posso.
Eu posso.

CLAUDIA


karina, quando criança, tinha jeito de criança. Sem nenhuma prioridade anormal. Gostava de coisas típicas de criança. Sistematicamente. Quando começou a ter corpo, ou melhor, quando seu corpo começou a ter mais forma feminina que infantil nada de estranho lhe era visto. Gostava de vaidades e tudo que lhe atribui. Cabelos, cheiro e espelho. Karina foi durante muito tempo como o tempo queria. Ela, simpática, tinha muitas pessoas que lhe queria bem. Sempre havia a sua volta um mimo. Conhecia muito bem alguns amigos e dividia com eles certos lugares. Bares, cinemas e escola. Mas foi na rua, coisa de tropeço, que Karina conheceu Claudia. E esta história é sobre Claudia. Ate onde se pode contar.
Claudia é digna de mil detalhes, mas vou me ater a um. Tinha dezesseis anos. Com dezesseis anos já se fez muita coisa. Nadou no mar, menstruou-se, brigou por coisas inúteis, etc, etc e etc. Coisas de dezesseis anos. Foi na esquina da Álvares Cabral com Augusto de Lima, dois grandes homens, que as duas, como disse anteriormente, tropeçaram. O sinal fechado para pedestres uma de lá, outra de cá. Um olhar que se cruza. Uma paixão que não se explica. O sinal abriu e ninguém atravessou. Houve medo do desencontro. Se olharam a distância de uma rua durante mais um tempo. O tempo de um sinal. Claudia atravessou e, já do outro lado, apenas sorriu. As duas passaram aquela tarde falando sobre tudo. Olhos concentrados em qualquer resposta. Mal sabiam que passaria dezesseis anos juntas. Amando de dar inveja. Felizes de dar inveja.
Logo decidiram namorar e que isso implicava responsabilidade. Apresentaram-se a quem deviam e seguiram. Beijavam com muita beleza e se falavam por códigos que só os amantes estruturam. Pensaram no futuro e em seus filhos que com certeza teriam. Não dividiam os perfumes. Cozinhavam uma para outra quando estavam acampadas na serra. Gostavam de música, cantavam juntas.
Claudia era simples, gostava de sandálias e amarrava o cabelo com passadeiras verdes e douradas. Tinha enxaqueca e pavor de lagartos. Chamava Karina de Nariza. O porque não sei. Mas achava lindo. Nariza é um apelido lindo. Coisas que só amantes entendem.
Claudia se desesperou quando Karina sofreu um acidente na porta da faculdade. Foi preciso socorro, internação e reserva de sangue. Descobriram que era hora de se casarem. E se casaram. Os melhores amigos levaram coisas. Cartões, panos-de-pratos, panelas e flores. Fizeram compras, compraram anéis e vasos. Pensaram em crianças e foram ao médico. E lá Claudia descobrira que jamais poderia ser mãe. Passaria por uma cirurgia de urgência. Sofreram e sofreram para sempre. Claudia estava feia, karina se enfeara junto. Claudia sobreviveu a todas noticias e procedimentos. Ficou de repouso. Tomou drogas fortíssimas e não se formou. Deprimida com tudo, pediu para Karina a deixar. Tinha ela trinta e dois anos quando viu sair Karina sem lhe dizer nada. Tão pouco levar nada. Isso doeu. Não brigaram. Isso doeu. Não choraram. Isso, também doeu. Claudia estava só. Sozinha cozinhou menos naquele sábado. Comeu menos. Deitou mais cedo e não dormiu. Passou o sábado, o domingo e a segunda sem dormir. Com fortes dores de cabeça, pediu que sua mãe lhe visitasse e na terça-feira lá estava sua mãe fazendo coisas de mãe. Chá, carinho e broncas. Passaram as dores e muito tempo. Claudia tinha agora uma idade que preferia não revelar.
Dentro de suas preferidas frivolidades está o jogo de cartas e as cartas que escreve para ela própria. Às vezes no silêncio de sua casa ri quando ela mesma lhe põe apelidos. Já se chamou de Doris, de Chata e de Pesle. Não me pergunte porque. Pesle porque, talvez, tenha a ver com seu ritmo lento de fazer as coisas, como se tivesse pés de lesma. Claudia detesta fazer compras. Isso lhe faz lembrar tantas coisas. Que há pouco dinheiro, que precisa emagrecer e o iogurte que Karina adorava, mamão com aveia, saiu de linha. Saiu de linha, também, o creme de cabelo que Karina usava. Dizer que Claudia não esquece Karina um instante sequer é mentira. Mas gosta de pensar nela de supetão.
Karina é, hoje, uma senhora sem nenhuma grande anormalidade. Não tem filhos e usa óculos. Vive praticamente para cozinhar e ler. Evita supermercados. Escreve para Claudia, mas não envia. Fez algumas coisas que não podem ser ditas. Mora muito próxima da casa onde morava quando criança. Passa muitas vezes pela avenida Augusto de Lima e sempre espera o sinal abrir duas vezes para atravessar. Sorte e tempo ou tempo e sorte. Mal sabem as duas que ambas morrerão daqui dezesseis anos sem nenhuma possibilidade de reencontro ou tropeço.

sábado, 21 de novembro de 2009

Amor, Festa e Devoção

Ela dispensa comentários. Sua voz é única e seu talento incomparável. Maria Bethânia que acaba de lançar dois CDs, "Encanteria" pelo selo Quitanda e "Tua" pela Biscoito Fino, estreia turnê nacional com o show Amor, Festa e Devoção. Com os ingressos esgotados onde quer que se apresente, a cantora abre o espetáculo com "Santa Bárbara", a dona das rosas vermelhas. Uma devoção a fé do povo baiano. E para compor ainda mais as surpresas do show, quando abre-se as cortinas lá está ela, linda a frente de um cenário coberto por rosas. As mesmas que são versos da canção de Roque Ferreira. O público que no primeiro momento reage embasbacado com tanto capricho e cuidado, delira-se com a música "É o amor" quando Bethânia insere o refrão "Do jeito que você me olha vai dar namoro" e volta novamente para "É o amor". Incrível, incrível, incrível. Somente uma cantora como ela consegue fazer isso. Orgulho-me de ter Maria Bethânia como patrimônio histórico e cultural do Brasil. Mulher que faz da voz instrumento que transforma as pessoas. Quando a ouço descubro que nasci na década errada. Que estou hoje aqui para acompanhar as novas, mas tendo ela como referência sempre. Amor, Festa e Devoção nada mais é do que um momento para deixar as lágrimas cairem. Deixar a emoção tomar conta da nossa mente. Refletir o amor, o amor e o amor. Amor de irmão. De pai. Dos homens e sobre tudo o amor de mãe. Espetáculo todo dedicado a Dona Canô. Um viva a Bethânia! Ela é a "Ê Senhora" , ela é "Feita na Bahia", a "Coroa do Mar", ela é "Tua", do Brasil. Outro Viva a Bethânia. Bethânia-me, como disse Dona Omara outrora. Assistam Bethânia. Procurem por ela.

Foto: Márcio Costa


Santa Bárbara - Roque Ferreira


É o amor - Zezé di Camargo


Do jeito que você me olha - Bruno e Marrone


Feita Na Bahia - Roque Ferreira


Coroa do Mar - Roque Ferreira


Tua - Adriana Calcanhoto


Ê senhora - Vanessa da Mata