Texto escrito pela cantora Fabiana Cozza twitter: @FabianaCozza
A madrugada começou com "fogos de artifício" anunciava meu pensamento preguiçoso ainda de um sono recente. Sábado cinza, às 3h20. Aos poucos, o que poderia ser uma festa - diga-se de passagem de gente muito animada - foi se cristalizando em rajadas amarelas, alaranjadas que cortavam o céu da Zona Norte do RJ, em Vila Isabel, pertinho do Morro do Macaco.A Vila, que já foi de Noel e de Luis Carlos, dava sinais de sobrevida e cheirava a sangue. Senti uma dor no estômago forte, uma agonia mesmo estando "protegida" a alguns metros do bombardeio. Era como se eu estivesse ali, junto a mães, crianças, velhos, homens e mulheres, trabalhadores em meio as rajadas e explosões de tiros, muitos tiros. Uma dor pela minha infinita pequenez humana e impotência diante do que rugia em meus ouvidos. Uma dor pela nossa miséria humana, pelos aplausos às Olimpíadas de 2016, ao choro emocionado do presidente Lula, ao sorriso forçado do governador da cidade maravilhosa Sergio Cabral Filho, à festa na praia de Copacabana, princesinha do mar 50 anos atrás.Uma dor pelo tráfico ser uma economia rentável e mortal para a maioria dos jovens que nascem e vivem nos morros e nas periferias das nossas cidades. Um desespero pela nossa desestrutura, pelas filas de doentes sem convênio médico nos hospitais públicos, a luta pela caixa do remédio que dá uma sobrevida aos velhos, o esgoto onde as crianças brincam como se estivessem num rio, o lixão que é o pão e a mesa de muita gente, tristeza pela máscara que pusemos na cara e o perfume que disfarça nosso fedor.Morremos todos. Não é possível... meu tormento na madrugada era este: "não é possível". É sim Fabiana. E está aí, pra quem quiser ver, pra você ver. E não são baratas que podem ser esmagadas numa batida de chinelo. Já foram todos bebês. Quem somos? O que queremos? Que mundo a gente quer efetivamente e qual o tamanho da força que precisamos para conquistá-lo?!Milhares de outros ataques virão. E não tem nada de pessimismo nisso. É manchete no jornal, sensacional. Esse discursinho babaca de quem vive bem e acha que o problema está muito, muito longe. Mentira!Aqui em SP a gente gosta desta fala, falsa. Está tudo aqui, no nosso Haiti.Somos todos iguais nesta noite.
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