A madrugada começou com "fogos de artifício" anunciava meu pensamento preguiçoso ainda de um sono recente. Sábado cinza, às 3h20. Aos poucos, o que poderia ser uma festa - diga-se de passagem de gente muito animada - foi se cristalizando em rajadas amarelas, alaranjadas que cortavam o céu da Zona Norte do RJ, em Vila Isabel, pertinho do Morro do Macaco.A Vila, que já foi de Noel e de Luis Carlos, dava sinais de sobrevida e cheirava a sangue. Senti uma dor no estômago forte, uma agonia mesmo estando "protegida" a alguns metros do bombardeio. Era como se eu estivesse ali, junto a mães, crianças, velhos, homens e mulheres, trabalhadores em meio as rajadas e explosões de tiros, muitos tiros. Uma dor pela minha infinita pequenez humana e impotência diante do que rugia em meus ouvidos. Uma dor pela nossa miséria humana, pelos aplausos às Olimpíadas de 2016, ao choro emocionado do presidente Lula, ao sorriso forçado do governador da cidade maravilhosa Sergio Cabral Filho, à festa na praia de Copacabana, princesinha do mar 50 anos atrás.Uma dor pelo tráfico ser uma economia rentável e mortal para a maioria dos jovens que nascem e vivem nos morros e nas periferias das nossas cidades. Um desespero pela nossa desestrutura, pelas filas de doentes sem convênio médico nos hospitais públicos, a luta pela caixa do remédio que dá uma sobrevida aos velhos, o esgoto onde as crianças brincam como se estivessem num rio, o lixão que é o pão e a mesa de muita gente, tristeza pela máscara que pusemos na cara e o perfume que disfarça nosso fedor.Morremos todos. Não é possível... meu tormento na madrugada era este: "não é possível". É sim Fabiana. E está aí, pra quem quiser ver, pra você ver. E não são baratas que podem ser esmagadas numa batida de chinelo. Já foram todos bebês. Quem somos? O que queremos? Que mundo a gente quer efetivamente e qual o tamanho da força que precisamos para conquistá-lo?!Milhares de outros ataques virão. E não tem nada de pessimismo nisso. É manchete no jornal, sensacional. Esse discursinho babaca de quem vive bem e acha que o problema está muito, muito longe. Mentira!Aqui em SP a gente gosta desta fala, falsa. Está tudo aqui, no nosso Haiti.Somos todos iguais nesta noite.
sábado, 17 de outubro de 2009
Morro do Macaco, RJ, 17/10
A madrugada começou com "fogos de artifício" anunciava meu pensamento preguiçoso ainda de um sono recente. Sábado cinza, às 3h20. Aos poucos, o que poderia ser uma festa - diga-se de passagem de gente muito animada - foi se cristalizando em rajadas amarelas, alaranjadas que cortavam o céu da Zona Norte do RJ, em Vila Isabel, pertinho do Morro do Macaco.A Vila, que já foi de Noel e de Luis Carlos, dava sinais de sobrevida e cheirava a sangue. Senti uma dor no estômago forte, uma agonia mesmo estando "protegida" a alguns metros do bombardeio. Era como se eu estivesse ali, junto a mães, crianças, velhos, homens e mulheres, trabalhadores em meio as rajadas e explosões de tiros, muitos tiros. Uma dor pela minha infinita pequenez humana e impotência diante do que rugia em meus ouvidos. Uma dor pela nossa miséria humana, pelos aplausos às Olimpíadas de 2016, ao choro emocionado do presidente Lula, ao sorriso forçado do governador da cidade maravilhosa Sergio Cabral Filho, à festa na praia de Copacabana, princesinha do mar 50 anos atrás.Uma dor pelo tráfico ser uma economia rentável e mortal para a maioria dos jovens que nascem e vivem nos morros e nas periferias das nossas cidades. Um desespero pela nossa desestrutura, pelas filas de doentes sem convênio médico nos hospitais públicos, a luta pela caixa do remédio que dá uma sobrevida aos velhos, o esgoto onde as crianças brincam como se estivessem num rio, o lixão que é o pão e a mesa de muita gente, tristeza pela máscara que pusemos na cara e o perfume que disfarça nosso fedor.Morremos todos. Não é possível... meu tormento na madrugada era este: "não é possível". É sim Fabiana. E está aí, pra quem quiser ver, pra você ver. E não são baratas que podem ser esmagadas numa batida de chinelo. Já foram todos bebês. Quem somos? O que queremos? Que mundo a gente quer efetivamente e qual o tamanho da força que precisamos para conquistá-lo?!Milhares de outros ataques virão. E não tem nada de pessimismo nisso. É manchete no jornal, sensacional. Esse discursinho babaca de quem vive bem e acha que o problema está muito, muito longe. Mentira!Aqui em SP a gente gosta desta fala, falsa. Está tudo aqui, no nosso Haiti.Somos todos iguais nesta noite.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
"Ouçam, leiam, procurem por ela. "
Foto: Marcos HermesTexto escrito pela cantora Maria Rita
Fonte: http://www.maria-rita.com/
Desde ontem sou tomada por uma mistura curiosa de emoções. Primeiro veio a triste notícia do grave estado de saúde de Mercedes Sosa. Em seguida veio o acalanto de uma alma que compreende que a morte não é o final. No caso de Mercedes, é só mais um momento. De tantos outros. E nesta situação estranha de aceitação do eventual partir de uma entidade, chega uma imensidão de lembranças, curtas imagens.Meu primeiro contato com Mercedes foi ainda em Nova Iorque, em 1996 ou 97. Estudando, conheci a voz que mexeu comigo tão intensamente. Nenhum privilégio nisso. La Negra já havia feito tão mais. Sua história é de Guerra, é de entrega. É de chorar as vítimas dos medos, das sombras, das entranhas latino-americanas. É de entregar as raízes sincretizadas. É de delatar o feio, o imundo, o horror. É de honrar os seus. É uma história feminina, acima de tudo e no seu máximo.Quando em 2007 surgiu a possibilidade de uma apresentação com ela, não dei muita atenção. Não por arrogância. Mas por pânico. Jamais compreenderei a generosidade daquela alma gigante para comigo. A confirmação de duas apresentações me puseram a chorar no escuro no meu quarto.
Ao vê-la pessoalmente, na sala de sua casa, andando vagarosamente, a grandeza de sua pessoa, de sua história me atropelou. Me levantei em respeito, como haviam me ensinado quando pequena, mas inesperada e ingenuamente corri para seus braços. Ela colocou sua cabeça no meu colo, mulher de pequeno porte que é, e eu só fiz chorar. Em meio a um silêncio ensurdecedor instalado naquela sala. Pude confirmar a força que aquela mulher tem. é só ouvir atentamente tudo o que ela já cantou, e como o fez.Hoje me deparo com a possibilidade do partir. A perda é grande. Não somente para os argentinos. Mas a beleza da Música é que ela nos permite guardar nossos ídolos, para além das lembranças. Ouçam, leiam, procurem por ela. Hoje e sempre. Os anjos das luzes e das sombras podem estar se preparando para um momento único. Mas La Negra nos deu sua eternidade.Maria Rita