quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Com todo o carinho do mundo


Vou te falar e, te falo então. Pensei que você pudesse dormir aqui, comigo. Só nós dois. Você e eu. Seu cabeça dura. Entenda que gosto de você e estou querendo mais uns dias para te conhecer. Era muito importante para mim esse feriado. Pensando nele, você comigo eu iria deixar correr solto todo meu sentimento. Não quero te enganar. Quando falo que quero ficar com você, é porque eu quero mesmo. Eu adoro você. Te ter por perto, te dá carinho, isso tudo é muito bom. Dá nome à relação agora é desnecessário. Eu te entendo. Mas você não quer ver o meu lado. Vai deixar morrer? Vai deixar escapulir alguém que pode ser o amor da sua vida? Se eu pudesse ficaria conversando com você pelo celular até amanhecer, mesmo você só me dizendo não, e não e não. Eu não proponho apenas um relacionamento sem sentimentos como você diz. Te cobrar o quê? Disponibilidade de tempo, atenção, fidelidade? Te pedi um fim de semana sem tempo. Você me negou. Tempo para eu te curtir, ficar só com você, entrar ou sair ou disso tudo sabendo se sim, ou se não. Depois você me diz que a cada dia que me vê, a cada momento ao meu lado, você gosta mais de mim. Desculpa por tudo, mesmo. Por hoje. Por eu falar de mais. Desculpa por pedir pra ficar com você. Da próxima vez, se houver próxima vez, eu roubo e não peço. Vai viver, vai. Vai ganhar a vida que é muito curta. Eu sigo por aqui. Foi mau, mau mesmo. Não queria assim. Deixa as sobras para mim. O que faço com aquele sabonete de bebê? Tomo banho sozinho com ele? Deixa que eu mesmo me ache um bebê. Que eu mesmo me chame de bebê. Assim a vida fica mais divertida para mim, não é? Se um dia me vir por aí, um sorriso seu basta. Mais uma vez, desculpa. Nunca mais diga que essa relação não tem sentimentos. Não é verdade. Ta claro, aqui, que existe gostar dos dois lados. E nunca mais vamos brigar porque não vai haver mais encontros. Estou fazendo o que você quer neste momento: que eu me afaste de você. Este tempo vai te fazer companhia. Vai te dá comida na boca e te botar no colo com todo o carinho do mundo.




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O amor


Vai lá, vai pedir por amor. Suplicar amor. Rejuvenescer amor. Pagar o amor à prestação. Dividir em 12 meses. Contratar o amor. Pagá-lo à vista.  Oferecer o amor em troca de amor. Trocar amor por mais amor. Doar amor por outro amor.  Vender amor no sinal. Fazer malabarismo com o amor.  Jogá-lo para cima. Jogá-lo para baixo. Colocá-lo em uma caixa encapada de papel pardo para vendê-lo no ônibus a três por um real. Montar uma banca no camelô mais perto e gritar ao freguês: Vamos levar um hoje, senhor? Leiloar o amor. Quem dá mais? Dou-lhe uma, Quem dá mais? Vendido! Bater de porta em porta oferecendo o amor. Medir o amor em xícaras. Esconder o amor como se esconde o trabalho infantil. Subornar o policial com meia dúzia de amor. Salvar o amor no pen-drive. Fazer cópias do amor e vender na calçada: Olha o lançamento, amor novinho! Atravessar a fronteira do amor ilegal. Colecionar amor como quem coleciona figurinha. Comparar o amor ao jogo do bicho apostando naquele de maior expressão, ou nos dos sonhos. Importar o amor. Trazê-lo com um melhor preço na viagem internacional. Pagar menos impostos por ele. Pagar mais impostos por causa dele, o amor. Investir o amor na bolsa. Mesmo que ela não seja de grife. Diluir o amor em porções. Amassar o amor e depois colocá-lo para descansar coberto com um pano de prato. Pendurar o amor nas orelhas com bastante brilho. Pagar o amor com amor. Sacar o amor no banco. Almoçar o amor a PF. Jantar o amor à la carte.  Vai lá, vai pedir por amor.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AMOR, FESTA E DEVOÇÃO

Se na simbologia dos sentimentos mais explícitos que é o amor que foi velado a dois, e foi contemporâneo um para o outro, hoje moderno, velado a três, a quatro, a cinco, que de tão corriqueiro quase ninguém presta atenção no que há de mais maravilhoso nele. E que de tão natural como um beija-flor, beijar a flor. E que estabelece relações, contratos, significados, conhecimento.... Que para ser sólido e preservar conceitos, se faz amarras pré, faz conceções, bajulações e não passa de um feitichismo que torna você mais sagrado que ele, ou ele mais sagrado que você..... Mesmo, hoje, agora, em que tudo é imediato e os amores breves, a dor existe. Se é na simbologia que nos apropriamos do mundo, nada mais justo dizer que AMOR, FESTA E DEVOÇÃO, exprime, imprime, reconhece em cartório, reafirma que o AMOR vale a pena. Que aquele AMOR, valeu a pena. Que o AMOR sempre vai valer a pena.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Meu nome é Luzia



A minha cabeça. Acho que não estou aguentando essa cabeça, moço. Acho que vai ter que picá-la fora. Crem Deus Pai! Muito cabelo. Vão querer pentear meu corte na ponta, ah, não. Dói muito. Eu estava indo bem. Foi só a conta de eu chegar aqui. Eu não aguentei. Eu estava ganhando tão bem. Fiquei na rua e eles falaram assim: sai desse frio! Estava caindo um gelo. Eu vinha para o centro da cidade e ficava no frio. Eu fiquei com meu marido no frio e não morri. Aguentei ficar na coberta e, ele também na coberta. Depois eu tive um filho com ele. É filho meu. Eu vou deixá-lo em algum lugar. Às vezes a gente se engana, olha esse senhor, ai. O olho dele é claro. Eu não tenho nada em Santa Efigênia. Vou ficar no Morro Alto mesmo. Eu fiquei retardada sem saber se sairia do apartamento. Ele disse: não vó! Ele está na casa dele. No fim, eu disse, me deixa sozinha. Com quatro meses meu deu a chave de sua casa. Ficou fechada por quinze anos. Eu não sei. Eu estava chorando. O homem me trancou na casa, no apartamento. Me deu até uma saudade do vizinho. Ele queria me matar. Eu dizia: então me tira daqui. Ele bateu em mim, me agrediu porquê eu mexi com ele. Não chegou ninguém. Eu sou uma menina, gosto de criança brincando comigo.. Tudo bem! Agora por que entrar dentro do Raul? O Raul é o meu avô. Por quê? Para confundir a cabeça da gente. Eu pensando que iria me curar, me salvar. Deixou a gente lá mesmo até crescer e se casar. Foi só falar, não pode! Só Deus é quem pode. Bobo. Nunca fizeram uma reza na igreja esses homens. Meu nome é Luzia. Pra nunca mais. Eu estava no CAPS. Passei dez anos no Morro Alto. Dez anos em Vespasiano. O CAPS fica para o lado de Vespasiano, depois da rodoviária. Pega o ônibus no ponto. Eu estou irritada com esse Morro Alto. Eu estou indignada com esse lugar. Eu vim aqui gostando de vir. O que você veio fazer aqui? Me perguntou a polícia logo ali na rodoviária. Eu vim porque minha mãe mandou. E cadê seus documentos? Ué, meus documentos estão aqui, ó. Ele vai pegar o bandido que cortou a mão dele. Por que não é comigo? Ele lutou com o homem e, o homem morreu. Saiu até sangue. Você que é homem igual a ele pode me ver,  ver você e ele. Eu cantava... "Eu e você, você e eu... Você e eu no coração.. Você me abraçou, você e eu..." Eu não fui mais para a aula. Estava aqui em Belo Horizonte. Esse caso aconteceu lá mesmo com a mulher quando eu fui para o Morro Alto. Eu fui de carro, voltar, eu voltei a pé. Mas aconteceu... O povo lá são filhos da roça. Um já foi embora com a enxada. O outro está junto com meu marido. Luzia vai com Deus, mas está caíndo de piolho. Ela era minha avó. Não era minha avó, nada. Era minha neta. Dentro de casa não entrava homem. Todos trabalhando para poder ganhar um dinheirinho. Ela pega o boi comigo porque eu dou alimentação para ela. Pensa que é minha filha e fala que é um sonho. Eu acho que ela é filha do Caio Martins. Eu tive ela com três meses. Eu sou da roça ou então eu sou um grão de café torrado. O homem mastigou o café. A mulher dizia: mastiga mais e mais até doer o dente. Isso foi há trinta e oito mil anos. Não vou desenhar. Eu vi ele se acabando com um, era minha filha. Ele arrancou meus olhos azuis. Meu pai está me vendo. Pegou meu dinheiro no banco. Eu sou filha dele que é homem-patrão. E ela é empregada. Chegou a ficar em mim. É falsa. A Luzinha está chorando. O olho dele é como o seu. Ele já morreu, já morreu. Tem que pedir a Deus, tem que rezar. É meu filho. É bem magrinho, lembra a vovó que é antiga.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

“O Senhor é o Meu pastor e Nada me Faltará”

Dizia Ele:

Raspe as paredes, dizia ele. Vista-se de preto, dizia ele. Morda a carne da boca, dizia ele. Engula o sangue. Gargareje como se fosse anticéptico. Detetize a casa. Cubra as paredes de cal. Três demãos para não deixar digital. Cubra os móveis com lençóis. Apenas um por mobília para render. Renda os guardas todos. Guarde-os nas gavetas da idéia. Suje as meias de lodo. Limpe as inteiras com soda gelada. Estende-se na gordura borbulhante. Frite os bolinhos no sol. Sopre as velas todas. Amamente os animais, dizia ele. Sofra calado. Raspe os calos dos indicadores. Pregue alguns pregos na testa. Lamba o chão, dizia ele. Chore as lágrimas todas. Seque-as com toalhas de concreto. Concretize a mentira. Minta para você mesmo, dizia ele. Negue suas vontades. Voe nas asas dos outros. Faça o outro de bobo. Ignore-os. Suba no telhado e evoque o tempo. Tempere seu corpo com bicarbonato e limão. Seja uma presa fácil, dizia ele. Atire-se. Se culpe. Seja a vítima. Ande na escuridão. Durma nos trilhos.

Responde Ela:

“O Senhor é o Meu pastor e Nada me Faltará”

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Dúvida

É assim mesmo... E mesmo assim mesmo tenho a dúvida. Que me cutuca o ombro esquerdo. Que me belisca o direito. Rodeia meu pensamento. Me confunde. Me ilude. Me clareia. Me mareia os olhos. Me enche os olhos. Me fecha os ollhos. Me abre. Me fecha de novo. Envelhece minha face. Me fascina. Me diz sim. Me diz de novo. Envelhece meus pêlos. Pelos cantos fico. Vou. Ando. Corro. Pulo. Sete ondas. Volto. Suspiro. Respiro. Todo ar. Me sufuco. Te sufuco. Te alivio. Queria mesmo é cair na avenida e atrapalhar a sua escola, como Thais Gulin em ÔÔÔÔÔÔ. E mesmo assim mesmo tenho a dúvida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Leblon

FOTO: Márcio Costa

Não sabia se escrevia mexer com x ou com ch. Rascunhou meia dúzia de palavras com letras desenhadas e dobrou em 4 partes. Colocou no bolso de trás da calça e foi com os seus afazeres. Despiu-se. Vestiu-se. Saiu novamente. Carro, buzina, farol, conversa, sol, sombra, carro, buzina, farol. Esqueceu o bilhete. Farol, buzina, carro, sombra, sol, conversa, farol, buzina, carro. Subiu até o 5º andar pelas escadas. Abriu a porta, fechou a porta, abriu a porta do banheiro, pegou o bilhete. Abriu as quatro partes. Sorriu. Desceu até o térreo pelas escadas. Abriu a porta, caminhou até o portão, abriu o portão, fechou o portão. Sorriu. A cidade acordou azul. As mulheres rosadas, as crianças vermelhas e os velhos cinzas de solidão. O amigo não ligou, o chefe não xingou, a máquina de café deu defeito pela 3ª vez. Atravessou o rebouças, ouvia Chico. Botou no reapet. Lhe deram bom dia. Sorriu. Correu na Lagoa, depois no Leblon. Sentou no quiosque pediu uma água. Lhe deram bom dia. Sorriu. Secou o suor, molhou a nuca, os pulsos. Despiu a camisa e o tênis. Foi andando até a praia. Espreguiçou-se, tirou os óculos e o boné. Lhe deram bom dia. Sorriu. Molhou os pés, depois as canelas. Água nas coxas. Arrepiou-se. Mergulhou. Primeira braçada, segunda braçada. Olhou para trás e viu o canal. Avistou os dois irmãos. Terceira braçada. Mergulho. Veio uma onda. Veio a segunda, veio terceira, veio a quarta, a quinta, a sexta, a sétima, a oitava, a nona, a décima, a décima primeira, a décima segunda, a décima terceira, a décima quarta.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

São João

Lá vai Maria carregando a bacia. Molha roupa daqui e ensaboa de lá. Pega a pedra, usa a pedra até a roupa limpar. Isso é de manhã com o sol esquentando a moleira. Mangas arregaçadas, frutas no chão e bicadas por passarinhos. Depois trata de ajeitar o almoço. Pica a couve bem fininha, prepara a farinha, afoga o feijão, carne de lata na dispensa, não dispensa o suco de acerola e o mingau de milho como sobremesa. Cuida da cozinha, lava as vasilhas, passa pano no chão. Prende o cabelo e deita na rede ouvindo baião. Descansada, lá vai Maria se emperiquitar pr’u arraiá. Pula fogueira ío, ió, pula a fogueira ia, ia. Ajeita o vestido florido. Maquiagem combinando. Sapato mais ainda. Perfume no cangote, xale no decote, pulseira cor de ouro e as crianças brincando de montar no touro. E lá vai Maria enfeitiçando os homens deixando a Vila de Macaeros um caos. As mulheres com ciúmes, as idosas com inveja, as religiosas com desdém, e os homens com vintém. Nunca uma festa de São João esteve tão animada. Maria não era depravada, nunca foi de andar pelada, não falava com estranhos, falava baixo para não incomodar. Todos os anos é assim. Onde tudo estava errado pelo menos pra Maria que agora era alegria e sorria pru que via. Foi chegando os homens tudo desejando a mulher, oferecia uma pamonha acompanhada de café. Balançava o vestido, rodopiava e batia o pé. Quem via o jeito de Maria se espantava com a heresia. Macaeros se chocava com tanta beleza escondida nos trapos do di-a-dia. Segurando um sino com a mão direita à esquerda o punho quebrava pra lá e pra cá. As cinzas da fogueira levantando na ventania fizeram Maria dançar. E ela ia feito doida, encarava as pessoas e ria desesperadamente. Nada mudava o que tinha em mente. Com ironia ela perguntava, cadê Santo Antônio? Cadê Toinho? Cadê, cadê? Dizem que o povo de lá que todo dia 24 de junho isso acontece. Ela passa o dia muda e a noite enlouquece.

sábado, 11 de junho de 2011

Se é que você me entende

Quando não quis mais foi por que achei que você não me valia. Julguei sua cabeça, seus gestos e seu timbre. Errei no último. Neste você disfarçou muito bem. Agora chorar pra quê? Pra se fazer de vítima? Pra ser de fato a vítima, a tregédia tem que ser muito grande. Chorar pra quê? Pra ser o vilão? Lembre-se: “somos todos na vida qualquer um de nós, vilões e heróis”. Siga em frente teu caminho. Conquiste os novos. Se mostre com verdade. Se não tiver, se apegue na verdade de quem tem. Não se esconda atrás do vidro fumê. Não enxergue chifre na cabeça de cavalo, se é que você me entende por que mais claro que isso, só tirando o insulfilm. E digo mais, na farmácia existem vitaminas. Elas revigoram!!! E isso não é coisa de momento, não é mania, trote, tique ou TOC. Isso é pensado. Surrado em tanque de pedra. Deixado de molho com bastante alvejante. Exposto ao sol quente, bem quente para o cheiro de mofo dar lugar ao Kouros. Se é que você me entende! Agora, muito além do que deseja hoje, faça um internato com doçura. Pergunte a seus risos o motivo de sua alegria. Isso é um bom começo para sair do sofrimento. Se conseguir ver arco-íris, sacis, gnomos e bichinhos de língua estrangeira já é um bom segundo começo. Quando se permitir ser quem realmente é, agarre na calda desse cometa salpique seu verdadeiro eu sobre nossas cabeças. Não eu, o seu eu. Se é que você me entende. A vida é um espelho sem razão. Não conte mais para as paredes coisas do seu coração. As coisas devem estar em uma boa porção do que você vai salpicar. E se você chegou até aqui no final de tudo o que eu disse, rasque metaforicamente, põe fogo neste bilhete virtual e se consegui lhe causar catarse, faça da infelicidade a felicidade, ao contrário do Édipo Rei que se cega e se exíla no final.